17 May 2009

africa

Namaacha, 2009

04 May 2009

madgermen

madgermen protestam durante o desfile do primeiro de Maio, Maputo, 2009.
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Os ex-trabalhadores moçambicanos na antiga RDA, vulgo madgermen viram os seus contratos rescindidos após a queda do muro de Berlim e posterior unificação da Alemanha. O grupo ficou conhecido pela sua capacidade de mobilização, pela sua persistência e pelo carácter directo e frontal dos seus protestos, contra a recusa do governo moçambicano em pagar os descontos feitos na ex-RDA. As manifestações dos madgermen envolvem, hoje, pouco menos de uma centena de pessoas.

03 May 2009

sunday walk

Maputo, 2009

02 May 2009

Dia do Trabalhador








Trabalhadores desfilam no 1º de Maio, Maputo, 2009

sabedoria de ponta (7)

Greve na empresa de segurança privada Omega, Maputo, 2009
- Não gosto de pretos.
- Então gosta de quem? Dos brancos?
- Também não.
- Já sei. Gosta dos indianos.
- Não. Gosto dos homens que não têm raça.
in Mia Couto, Terra Sonâmbula.


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30 April 2009

os donos do lixo

Mercado informal no Zimpeto, Abril de 2009


"'Às vezes apanhámos no meio do lixo uma nota de 50 ou de 100 meticais e ficamos felizes por isso. Sobretudo lá nas zonas da Sommerchield, do Bairro Central e da Polana', narra um dos colaboradores, soltando uma enorme gargalhada. Pelas maiores posses dos seus habitantes, é nos contentores instalados na Sommerchield, no Bairro Central e na Polana que se encontra a maioria dos «donos do lixo». 'Lá o lixo é dos melhores', comenta, rindo. E as gargalhadas rasgam a noite, que já vai longa".

Armando Nenane (01.05.2009) "«Donos do lixo» enfrentam homens da recolha" in Semanário Savana.

Great Wall of China

Um casal jovem espreita a construção do Estádio Nacional de Moçambique, Abril de 2009


(em cima) "Equipa Técnica Chinesa para Construção do Estádio Nacional de Moçambique"
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(à esquerda) "Amizade entre a China e Moçambique irá prevalecer como o céu e a terra".
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(à direita) "Este projecto será feito com maior perfeição de modo a dar Glória à China".
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Ou então não...

23 April 2009

zimpeto

Maputo, 2009
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Silvestre sofreu um acidente de trabalho na construção do estádio nacional do Zimpeto por volta das 10h00 da manhã. Um bloco caiu sobre a sua perna enquanto trabalhava numa vala. Apesar das queixas, Silvestre permaneceu sem assistência até às 17h00, altura em que foi levado para o hospital central de Maputo, a cerca de 10 km de distância. De acordo com Silvestre, as muletas foram-lhe fornecidas pela empresa e, posteriormente, descontadas no salário. A vida Humana ou o sofrimento do Homem têm, de facto, um significado muito relativo.

20 April 2009

Lost in Translation (5)

Maputo, 2009

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29 March 2009

jauana jr

Maputo, 2009

(futebol)ismos (10)

Moçambique 0 - Nigéria 0

As 24 horas que antecederam o jogo de abertura do grupo de apuramento para o Mundial 2010 / CAN foram vividas, em Maputo, com euforia: buzinas, apitos, bandeiras, camisolas, mensagens de telemóvel, cerveja, gritos... "L'émotion est nègre comme la raison est hellène”, diria Senghor, construindo em torno destes dois conceitos uma diferença fundamental entre populações de dois continentes. A procura ou a negação de traços característicos e específicos de um povo constitui um processo não só identitário, mas também, utilitário. Once again: I am not I.

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23 March 2009

indian ocean

Maputo, 2009

21 March 2009

betão

Maputo, 2009

20 March 2009

mosquito net

Maputo, 2009

13 February 2009

This is not a love letter (7)

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Boaventura de Sousa Santos vem denominando de Epistemologias do Sul todo um conjunto de tendências de inclusão de novas experiências de conhecimento do Mundo. Designado de sociologia das ausências, este processo de recuperação de saberes parte da ideia que a racionalidade que subjaz a um pensamento ocidental não reconhece, ignora e desperdiça muita da experiência social disponível ou possível no Mundo. Para a captar seria necessária a reinvenção de uma racionalidade mais ampla, disponível para absorver uma emergente experiência social. Um conjunto de questões que se coloca prende-se com a própria definição de saberes e conceitos do Sul, da sua distinção relativamente a conceitos do Norte, do Este ou do Oeste, da visão do Mundo subjacente a esta perspectiva, da possibilidade de configuração de conceitos híbridos ou do tipo de relacionamento possível entre estes diferentes conhecimentos. Again: I am not I.
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16 November 2008

cabritos ou vampiros

Maputo, 2003

Se um banco privado num país africano apresentasse um buraco financeiro de 800 milhões de Euros, se houvessem graves suspeitas de fraude e ninguém estivesse em prisão preventiva, se os administradores tivessem exercido cargos influentes no Governo e se suspeitasse de inércia e passividade do banco central, depressa apareceriam as explicações do costume: que se trata de um Estado neo-patrimonial, que os bens “públicos” são naturalmente apropriados para fins “privados”, que o enriquecimento em África pressupõe o acesso ao poder político, que o cabrito come onde está amarrado…

Quando se analisa esta suposta especificidade africana parte-se (ou partia-se) normalmente do pressuposto que na Europa ou nos Estados Unidos a realidade é completamente diferente. Pois é... eles comem tudo...




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25 October 2008

jean loup sleff


18 October 2008

informação


12 October 2008

shopping

Braga, 2008

10 October 2008

This is not a love letter (6)

Santa Cruz, 2008
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Se a Constituição estipula que todos os cidadãos são iguais perante a lei, não percebo qual é a legitimidade dos cento e tal deputados da Assembleia da República para decidir se se deve proibir ou deixar de proibir que um grupo de cidadãos, cuja orientação sexual é para o caso irrelevante, possa ou não possa casar. Têm precisamente a mesma de um grupo de homossexuais que se reúna numa assembleia para decidir se os heterossexuais devem poder casar pelo civil: nenhuma.

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06 October 2008

Is this active citizenship? (7)

Lisboa, 2004
A Entidade Reguladora da Comunicação Social (cujo conselho regulador é nomeado pela Assembleia da República e portanto pelo partido no poder) não aceita que o professor Marcelo (que por acaso é militante do PSD) tenha mais uns minutos de antena que o António Vitorino (que por acaso é militante do PS). Mas ao que parece considerou natural que vários jornalistas e directores de órgãos de informação recebessem sucessivos telefonemas do gabinete do Primeiro-Ministro (inclusive do próprio), com pressões para não publicarem uma notícia sobre o estranho percurso universitário de José Sócrates, numa instituição de seriedade duvidosa.
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"Fiquei com uma boa relação com o seu accionista [Paulo Azevedo] e vamos ver se isso não se altera" não constitui para a ERC uma tentativa de intimidação e de pressão por parte do Primeiro-Ministro ao director do jornal Público. Para a ERC tratou-se antes de uma "intervenção", expressão "menos marcada do ponto de vista valorativo”.

A realidade é que José Sócrates, que na sua demagogia faz o apanágio do modelo finlandês, da inovação e da qualidade na educação, não só tirou uma licenciatura à macaca, como procura impedir
, de forma descarada e prepotente, o direito das pessoas à informação.
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05 October 2008

Is this active citizenship? (6)

Lisboa, 2008
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O Presidente da República disse finalmente aquilo que toda a gente já há muito sabia: que o que é vivido pelos cidadãos não pode ser iludido pelos agentes políticos; que quando a realidade se impõe como evidência não há forma de a contornar; que as famílias se vêem gregas para pagar os empréstimos aos bancos; que emergem chocantes disparidades de rendimentos.
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Esqueceu-se de referir que os cidadãos que mais dificuldades têm para pagar os empréstimos, constituem precisamente aqueles que ainda vão ter que pagar uma crise que se adivinha. Isto contrariamente aos que mais lucraram em comissões pela concessão de créditos irresponsáveis, demasiado próximos do bloco central para assumirem responsabilidades.
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Uma vez mais se comprova que a Democracia é um sistema pelo qual um povo é governado de acordo com aquilo que merece.

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30 March 2008

tristes trópicos (5)

Vilankulos, 2003
Diz que o estrangeiro tem grandes olhos mas não vê nada. Se podes olhar vê. E se consegues ver... repara.

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06 March 2008

(futebol)ismos (9)

Excerto de uma entrevista de António Lobo Antunes (ALA) à revista Visão (V) onde, às tantas, se evoca a dita 'Guerra do Ultramar', em Angola, onde lá teve que participar:

- (V): Ainda sonha com a guerra?
- (ALA): (...) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
- (V): Parava a guerra?
- (ALA): Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
- (V): Não vou pôr isso na entrevista...
- (ALA): Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?

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05 March 2008

silêncio. fenómeno físico (3)

(Jyväskylä, 2002)

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08 February 2008

a carta

06 February 2008

chapas

Maputo, 2003

E o povo saiu à rua num dia assim...

03 February 2008

a luz

Muros, 2004
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"Poderemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz".
(Platão)

28 January 2008

lost in translation (4)

Tallinn, 2002.

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12 January 2008

tristes trópicos (4)

Vilankulos, 2003.
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João sabe que há duas maneiras de partir. Uma é ir embora. A outra é enloquecer. O único destino de uma viagem é o desejo de partir novamente e não ter esse destino é juntar numa só outras variedades de dor. Talvez seja um assunto para vidas inteiras.

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10 January 2008

six feet under

Scotland, 2001.

08 January 2008

this is not a love letter (5)

Budapest, 2006.

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02 January 2008

(futebol)ismos (8)

Maputo, 2004


Nos Cadernos de Estudos Africanos (nº9/10) do ISCTE, o sociólogo Nuno Domingos, doutorando em Antropologia Social no SOAS publicou um interessante trabalho intitulado "O futebol Português em Moçambique como memória social". O artigo começa da seguinte forma:

"No final do mês de Março de 2006, no exterior do Mercado Central de Maputo, fui abordado por um jovem vendedor ambulante que se distinguia da multidão por envergar uma camisola garrida do Liverpool FC, clube de futebol inglês. Enquanto lhe garantia não ser um turista e não estar interessado nas várias peças de roupa, distribuídas por diversos cabides, que procurava vender, ele insistia para que eu olhasse para a sua mercadoria adiantando que sempre era melhor vender do que andar a roubar (...) Parei, apontei para a sua camisola e disse que tinha vindo a Moçambique para ver jogos de futebol, aproveitando para lhe lembrar que o Liverpool acabara de ser eliminado, nos oitavos de final da Liga dos Campeões Europeus, pelo Benfica. O jovem vendedor olhou-me com um sorriso e apresentou-se como Marcos Isaías, normalmente conhecido por Isaías, nome dado pelo pai em homenagem ao antigo jogador de futebol brasileiro que jogou pelo Benfica (…) Marcos Isaías, que tinha 13 anos, colocou as devidas notas de rodapé para suportar o seu discurso. Arsenal-Benfica, segunda mão da eliminatória de acesso à Liga dos Campeões, 1991. Vitória histórica do Benfica por 3-1 em Londres, com dois golos de Isaías. O pai de Marcos Isaías jamais se esquecera daquela noite em que o «pontapé-canhão» do clube de Lisboa fora saudado de pé pelo público que enchia o estádio de Highbury. Marcos Isaías nasceu dois anos depois. A camisola vermelha do Liverpool, oferecida por um turista inglês, substituía, à falta da original, o equipamento do clube português”.

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23 December 2007

silêncio. fenómeno físico (2)

Jyväskylä, 2002.

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13 December 2007

tristes trópicos (3)

Vilankulos, 2007

Sopa quer saber notícias do mundo e pouco importa que sejam verdade. Quando viajar gostava de ir ao Maputo.

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12 December 2007

tristes trópicos (2)

Vilankulos, 2003

Hogigo não sai de casa quando à noite a lua dá sentido à escuridão. Receia que dentro da noite haja uma outra. De dia sonha com o acontecer do mundo mas sabe que o mundo não acontece. O mundo demora tanto que ainda não veio. Hogigo faz então o melhor que sabe. Talvez acordar seja um lento envelhecimento, um enfado que se soma ao cansaço da humanidade.

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11 December 2007

cimeira UE-UA

Vilankulos, 2002.

No rescaldo da cimeira Europa-África, o Bagaço Amarelo publicou este texto:

"Marido e mulher vivem juntos mas já não se conseguem aturar um ao outro. Dormem em quartos separados, cozinham cada um para si a horas diferentes e compraram uma televisão nova porque gostam de programas também diferentes. Só falam um com o outro para discutir quem é que deve pagar as contas da água, do gás e da electricidade. Às vezes também embirram porque precisam de ir à casa de banho ao mesmo tempo e, ou ela gasta horas a pintar o cabelo e a fazer a depilação, ou ele se põe a ler o jornal enquanto defeca. No entanto, quando saem para encontros sociais, vão juntos e fingem que está tudo bem na relação. No fundo, discutem muito mas continua sempre tudo na mesma.

Na cimeira União Europeia/África, que terminou hoje em Lisboa, tentaram sorrir um para o outro mas não conseguiram. Acabaram por discutir um bocadinho mas sempre com a voz baixa, não fosse alguém perceber que a relação está em crise. Amanhã vai continuar tudo na mesma: no Zimbabué, no Sudão e em Cabinda, por exemplo. Entretanto, a Europa vai fazendo a depilação no corredor enquanto África lê o jornal e caga".

07 December 2007

(futebol)ismos (7)

Estádio Municipal de Braga, 2004, jogo Holanda-Estónia.


No início do campeonato do Mundo de futebol de 2006, incomodado com o predomínio de jogadores de descendência africana na selecção francesa, o humorista Jean-Marie Le Pen disparatou que os franceses não se reviam na selecção de futebol do seu país. Nunca cheguei a perceber bem quem eram os "franceses". Semanas mais tarde, depois de todas as equipas do continente africano terem sido eliminadas, a selecção francesa derrotou a congénere brasileira nos quartos de final da competição, transformando-se no adversário seguinte da equipa portuguesa. Minutos depois do França-Brasil recebi uma mensagem no telemóvel de um amigo moçambicano: "Viva a França! A selecção mais africana do Mundial". Também não percebi bem quem eram os africanos, mas reparei com humor como, por vezes, um africano e um líder da extrema-direita francesa conseguem estar tão de acordo.

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06 December 2007

(futebol)ismos (6)

Aveiro, 2006, visionamento na TV do jogo Portugal-Angola.


No dia 25 de Junho de 1975, no estádio da Machava, foi oficialmente proclamada a independência de Moçambique. O povo saiu à rua e a cidade de Maputo fervilhou, festejando a libertação em relação ao colonialismo português.

No dia 25 de Junho de 2006, a selecção portuguesa de futebol derrotou a congénere holandesa por 1-0, nos oitavos de final do campeonato do Mundo.

No dia 25 de Junho de 1975 ninguém imaginou que, no trigésimo primeiro aniversário da independência de Moçambique, nas ruas de Maputo se iriam formar, espontaneamente, caravanas de automóveis, com bandeiras e cachecóis da selecção portuguesa de futebol, gritando-se o nome da antiga potência colonial. Enfim...

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05 December 2007

silêncio. fenómeno físico

Jyväskylä, 2002

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03 December 2007

o pintor bonito (2)



Clown talvez tivesse sido um homem seguro, que explodia ditirambos, mas Clown não queria existir aqui.
Por esta altura era seu desejo escrever com as estrelas a latejar na cabeça uma família com deus e tudo.
Clown talvez fosse uma figura do velho testamento.
Clown rejeitava maçãs na juventude, mas na infância era do que se alimentava...
Talvez Clown fosse o melhor amigo de Heiner Muller.
Clown foi um ditirambo quando uma criança apareceu com a carinha pintada de cores celeste,
(clown!) (clown!) (clown!)

Trunk
Pong
Don't
Poing

O inglês era surdo,

Again
Trunk
Paul

Eu e tu, na noite estrelar, nos olhos, Clown.
Houve uma noite que, dear Clown se revelou, era o pai....

Gostava que Clown fosse sinónimo de lágrima na secretária que eu via de madeira feita de chocolate.
As pombas das boulevards comiam chocolate azul eléctrico com sais de prata para os olhinhos…
Não era terrorismo a criança alimentar-se no crepúsculo das quatro e um quarto da manhã.
Heiner Clown costumava ver Bowie Clown e Peter Clown e Nich Clown
O Céu chorava…
O Céu chorava…
E as pombas fotografavam o primeiro espaço de jeito de ocidente a oriente. E viva a trigonometria! Do nariz de Clown.
Olhos de velhinho – era então menino.
Os homem também são meninos e, os meninos, até os que não tiveram espaço para sê-lo.
Mas Freud Clown vestia-lhes as fardas dos sorrisos nos lábios.
As mulheres pintavam-se pouco, houve tempo para tudo, assim como:
depois disto tudo, o som saiu e entrou estrelas acima, e veio o clarão.

Não pensem que sou Clown
Mas, tenho sentimento Clown


Clown Clown

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30 November 2007

tristes trópicos

Vilankulos, 2003

Sufixo diz que tem o nome da derivação, que fez a escola com o Samora. Nesse tempo o Mundo tinha de certeza outra idade. Sufixo faz parte da espécie dos Homens que andam no mar.

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29 November 2007

(futebol)ismos (5)

Estádio Municipal de Braga, 2004, jogo Holanda-Estónia.

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Em 1995 a República da África do Sul organizou e venceu um campeonato do mundo de rugby. Foi talvez a primeira vez que, num país que ainda curava as feridas do apartheid, se festejou em conjunto, de forma multicultural, uma vitória nacional. No estádio de Cape Town, durante o discurso de abertura da competição, Nelson Mandela procurou promover a integração nacional através do desporto. O então presidente deu as boas-vindas a todos em nome de uma “nação arco-íris” que, para ele, seria a nova África do Sul. Por detrás da organização tanto do campeonato do mundo de rugby de 1995, como do de futebol em 2010 reside um interesse político de impulsionar a unificação das inúmeras populações de descendência inglesa, africânder, asiática, xhosa, zulo entre outras. É sempre interessante compreender as contradições que envolvem o desporto, o racismo, a etnicidade e o nacionalismo.

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28 November 2007

sabedoria de ponta (6)

Maputo, 2003

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precisamente: à parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

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25 November 2007

this is not a love letter (4)


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23 November 2007

o pintor bonito

Arcos de Valdevez, 2002

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a calçada húmida sugere-lhe os edifícios que choram e

então ele pensa

muito nos edifícios que choram e nos que não choram e

depois prepara

os passeios e as conversas onde o olhar se demora nas

margens e com

isto falo do arrebatamento

.

cristo não jogava andebol e no entanto jogava e por vezes

os monólogos

eram fotografias a preto e a branco de jardim ou jasmim

consoante o

incrédulo impulso antecipativo: pincéis e mãos cinzelados

pela dança

convulsa e certeira

.

dos sonhos solicitados à agrura dos dias e das noites

efectua-se a

divisão correcta e então uma determinada melodia projecta

as sombras

das personagens que vão sendo incorporadas e do que

sobeja e se deseja

e se implica e levita pode referir-se a lucidez

mds

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20 November 2007

sabedoria de ponta (5)

Maputo, 2004

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(ele) Achas que... ah desculpe, confundi com outra pessoa.

(ela) Não tem problema. É bom confundir.
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12 November 2007

mas quando a tarde cai vai-se a revolta

Guimarães, 2007


Quando falamos em juventude, falamos de jovens rurais ou urbanos? De jovens operários ou das classes médias? Estudantes ou trabalhadores? Solteiros ou casados? De esquerda ou de direita? O conceito de juventude costuma ser utilizado como um todo mais ou menos homogéneo que, atravessando uma determinada fase da vida, associada a uma certa instabilidade emocional, por vezes conotada com determinados problemas sociais, aparece como criadora de uma cultura própria. O facto de se falar dos jovens como se de uma classe social se tratasse, de um grupo dotado de interesses comuns constitui uma evidente manipulação. Não só as representações correntes do senso comum sobre a juventude como também os discursos políticos e as intervenções administrativas, como sobretudo a influência dos media contribuem para esta manipulação. Alguns jovens reconhecem-se neste mito, transformando-o parcialmente em realidade, formando-se entre eles uma espécie de consciência geracional que os leva a acentuar diferenças entre gerações.

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11 November 2007

Battersea Power Station

London, 2006

from Pigs on the Wing:

07 November 2007

you say the hill’s too steep to climb

Edimburg, 2001

05 November 2007

I am not I (9)

Ezulwini valley, Swaziland, 2004

A ideia de mãe-África, de ligação ancestral ou de África-berço-da-Humanidade sugere-me normalmente a existência de um complexo identitário. E o mais interessante é que nem sei até que ponto contra mim falo.

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03 November 2007

(futebol)ismos (4)

Braga, 2005, um adepto benfiquista comemora a vitória do Benfica no campeonato nacional de futebol.

No período pós-independência, praticamente todas ruas da cidade de Maputo foram rebatizadas. Durante a catarse revolucionária, todos os herois coloniais foram substituidos por nomes de líderes africanos, socialistas e comunistas. O bairro de Benfica, no subúrbio de Maputo, não foi excepção - pelo menos formalmente deu lugar ao bairro Dimitrov, em homenagem ao revolucionário comunista búlgaro. Contudo, no seu quotidiano, as populações continuam a designá-lo de bairro do Benfica e poucas terão alguma vez ouvido falar de Jorge Dimitrov.

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02 November 2007

(futebol)ismos (3)

Maputo, 2004
Em Julho de 2003, ao fim de cerca de uma semana em Maputo, assisti a uma conferência do Mia Couto no hotel Polana, supostamente sobre um relatório do Banco Mundial sobre o desenvolvimento em Moçambique, mas na realidade sobre a questão das identidades nacionais. A moçambicanidade, o anti-colonialismo, a existência de várias cidadanias em Moçambique, a relação dos jovens com as culturas estrangeiras foram assuntos discutidos, animadamente, pelo conferencista e pela audiência.

No final jantei com amigos moçambicanos. Apesar das convicções nacionalistas um facto é que se discutiu, com profundo entusiasmo, as qualidades técnicas do Figo e do Rui Costa, reagiu-se com indignação a provocações clubistas e comparou-se, com conhecimento, o plantel do Sporting ao do Benfica. E bebeu-se muito vinho de pacote, de marca Amália, que eu não usaria sequer para temperar a carne. Durante o jantar só faltou mesmo um fado. Ao fim de cerca de uma semana na cidade apercebi-me que um anti-colonialismo militante das classes médias é conjugado com dimensões salazaristas da cultura portuguesa. I am not I.

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31 October 2007

estado tipo 17h53

Jyväskylä, 2002

Dizer que o Outono é mais um estado da alma do que da natureza é um cliché. Mas é um estado de fim do dia, um estado tipo 17h53.

30 October 2007

achamentos

Lisboa, 2007

A expressão "descobrimento" comporta um evidente enviesamento etnocêntrico. Sendo descobridores, os portugueses (e os europeus) foram também descobertos. O olhar dos europeus sobre os outros não deve obliterar a forma como os outros olharam os europeus ou como os outros se olhavam a si mesmos.

24 October 2007

sabedoria de ponta (4)

Vilankulos, 2003

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupar de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera.
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O melhor que sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar.

Mia Couto, "O menino que escrevia Versos".

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18 October 2007

lost in translation (3)

Amesterdam, 2004

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16 October 2007

flicker

Gerês, 2007

Flicker (to) tremular a luz; estar hesitante; pestanejar.

12 October 2007

eloquência

(Braga, 2007)

Samora Machel ficou conhecido pela sua expressividade, pelos ditos e conceitos que utilizava que, apesar do carácter despótico, o tornaram num dos líderes africanos mais carismáticos do seu tempo. Discursando e representando com ardor, Machel conseguia facilmente empolgar e magnetizar as multidões, mesmo quando era insuficientemente compreendido.

O meu amigo Rogério Boane pertenceu aos jovens Continuadores, como é conhecida, em Moçambique, a geração nascida na década de 70. Nos primeiros anos de independência, os jovens marchavam e constituíam parada perante o içar da bandeira, entoando com alento o hino nacional. Na rádio, no Kuxa Kanema, nos comícios populares, esta geração assistiu, estupefacta, ao entusiasmo e à eloquência discursiva do líder de Moçambique.

09 October 2007

people and comics

Braga, 2007

Do people look like comics or do comics look like people?

08 October 2007

light and water

(Braga, 2007)

05 October 2007

urinar na cama por puro prazer

(Espinho, 2007)


De acordo com Dali, em The secret live of Salvador Dali, "à excepção de entrar na cozinha, tudo o resto me era permitido. Urinei na cama até aos oito anos, por puro prazer". Dali referia sentir uma grande alegria em fazer exactamente o contrário do que lhe ensinavam.

02 October 2007

cuidado com o SIDA (3)

(Maputo, 2003)

Foram polémicas as declarações da semana passada do arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, à BBC, segundo o qual dois países europeus infectam deliberadamente preservativos com HIV, com o objectivo de exterminar as populações africanas. Trata-se de um comentário da responsabilidade do Clero, e portanto do Vaticano (pergunto-me se, afinal, a Terra move-se), que provocou indignação na Europa, e que gerou em Moçambique, um interessante debate, enquadrável naquilo que é hoje definido por discursos pós-coloniais.
Após a independência dos países africanos produziram-se, tanto em África como em anteriores potências colonizadoras, novas interpretações da história e da sociedade, que procuram subverter um paradigma europocêntrico e colonial. Em África, as novas análises passaram a destacar os conflitos sociais entre os anteriores colonizadores e colonizados, bem como os aspectos políticos e económicos da acção colonial, e respectivas repercussões nas actuais condições de vida dos africanos. O pressuposto destas análises é que a exploração dos recursos das colónias constituiu o resultado de relações sociais assimétricas, que importa denunciar. As novas abordagens assumiram um carácter nacionalista, de cariz marcadamente anti-colonial, classicista e militante.
A partir da década de 90 desmantelou-se o apartheid e o bloco soviético, que tiveram a sua influência por toda a África Austral, e multiplicaram-se, na região, ensaios de regimes políticos democráticos e liberais. A redução do papel do Estado na economia, o aumento do investimento estrangeiro, a persistência ou o agravamento de fenómenos como a corrupção, as assimetrias ou a exclusão social tendem a subverter os projectos políticos e sociais, idealizados aquando das independências. Neste cenário surgem novas e variadas perspectivas (pós-coloniais) que vêm problematizar narrativas (anteriores), de cariz marxista, populista ou anti-colonial, assim como a própria formação do poder e das classes sociais.

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01 October 2007

this is not a love letter (3)

Alden Biesen, 2007

In Belgium, if you get a job for the train company NMBS you also get a girlfriend/boyfriend. Or at least a wonderful kiss.

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28 September 2007

red door painter

Maastricht, 2007

27 September 2007

jesus christ super star

Avignon, 2004
Não posso deixar de reconhecer que o nome Fátima sempre me provocou uma certa náusea. Mas hoje quase que não.

17 September 2007

this is not a love letter (2)

Maastricht, 2007

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08 September 2007

what is european? (15)

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07 September 2007

what is european? (14)

Brussels, 2005


Maybe no one can explain what European identity is. But it’s maybe possible to explain what is Europeanization. Europeanization is the sharing of experiences among Europeans and the respective process of imagining a common identity. Probably the success of this on-going project will depends on the economic and social integration of Europe, and on the EU capacity to proportionate to all Europeans access to full citizenship: education on a high standard, employment and social security.

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06 September 2007

what is european? (13)

Figueira da Foz, 2007

The contact between groups influences the productions of (self) representations of identities of those groups. Those on-going identities use to detach what is identical between the elements of the “in group” and to exaggerate differences about the “out-group”. It is the contact with difference that not only makes the consciousness of identity, but also changes it, obliging to assume it self.

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05 September 2007

what is european? (12)

London, 2006



Politicians use religious, linguistic, racial or economic differences to distinguish who is with or against “national citizens”. The existence of an “Other”, of an enemy from the people increase unity among nationals. An aggressive Russia, a possible Chernobyl new catastrophe, George Bush administration, immigration, terrorism or orthodox muslin threaten, have potential to create the necessary fear among Europeans. “They” (no matter who they are) will be the threaten. “We” (no matter who we are) will be the victims.

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04 September 2007

what is european? (11)

Coimbra, 2007

“Someone knock the door

– you didn’t open”


The lack of interest of the Europeans concerning to the EU political system is evident. Most of them have never heard about the Court of Justice or the Council of Ministers. Average Europeans knows little about how the European Union works, which also is a problem in the development of an European identity. The increasing of consumption and leisure values is accompanied with a decrease of the politic involvement, especially between youngsters. The European power in Brussels is precept as something confused, bureaucratic and distant from the common elector and the number of non-voters for the European Parliament is significant in most of the countries. The general indifference concerning to those issues may also means a passive resistance against the political structure, which politicians have not been able to face in an efficient way.

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what is european? (10)

Scotland, 2001


In Aberdeen, a football fan from Hibernian FC says that he is from Inverness. In Edinburgh, people can think that he is from the Highlands. In London, he might fell from Scotland. In vacancies in Spain perhaps from the United Kingdom. In Japan, maybe he will feel European.

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03 September 2007

what is european? (9)

London, 2006

Despite all the differences between regions, in the western European countries is possible to find a similar pattern of economic development. Social life progressed along similar lines everywhere, based on a high-developed trading system involving the exchange of goods, labour and know-how. This western capitalist trading system formed social groups predisposed to a transnational identification and a common culture could take hold. In fact, economy has being the engine of the European construction and Euro becomes, inclusively, the main European symbol. However not all Europeans uses or even wants to use Euro, and 2004 enlargement increased the economic diversity within the members States. Once more, European identity is an on-going concept.

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02 September 2007

what is european? (8)

London, 2006


Since the late 1960s, the western world knew an intellectual movement that questioned old certainties such as modernisation, progress, reason and positivism. A new generation, more informed and critic become aware of environmental, Human Rights or historical problems. Far from being the triumph of civilisation over irrationality, tyranny and violence, Europe becomes a metaphor for post-imperial and self-punishment. If values as liberty, democracy, tolerance or peace are being considered as part of the European Union, Europe is also scepticism, contradictions and diversity. Did European Union born from an European nihilism?

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31 August 2007

lisboa

Lisboa, 2002

Lisboa pertence àquele género de português

que ficou sem emprego e, assim,

após uma vida de aventura, entre naufrágios e conquistas,

que duravam dois séculos,

recolheu timidamente a casa a fazer meia e a cantarolar o fado”.

Álvaro de Campos


29 August 2007

what is european? (7)

Coimbra, 2007
Europe is known as the origin of several politic ideologies such as democracy, capitalism or socialism. Free thought, individualism or humanism are other principles that have their roots in Athens or Rome. However, neither Greek nor Roman civilisations can be described as Europeans. Both were Mediterranean cultures with centres of influence in Asia Minor, Africa and the Middle East. Historians have founded some European ideals back in the Renaissance period. The Enlightenment and the French Revolution contributed to the demand for freedom, equality, fraternity, democracy, self-determination, equal opportunities for all, clearly defined government powers, separation between the powers of church and state, freedom of the press and human rights. However, European history is also characterised by the existence of the inquisition, absolutist regimes, colonial imperialism, Nazism, censorship or intolerance.

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28 August 2007

what is european? (6)

Marseille, 2007

Politicians use religious, linguistic, ethnical or economic elements to imagine limits of national identities. Beside those elements, it is important to imagine an outside member, an enemy of the people, in order to unify the group against a threaten and to increase national identity. The communist threaten during cold war somehow help western Europeans to develop a wide sense of identity. According to some conservator political speeches, an aggressive orthodox muslin world is nowadays the new outside member for the western world. This negative construction of identity is responsible for the exclusion of the Other, and imagines new walls where there was a complex historic relationship: “Who are you? We are not them!”

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27 August 2007

what is european? (5)

Maastricht, 2005


Although Christianity has its roots in Judaism (which is a religion from the Middle East), Christian tradition is a common aspect of the European pass. During the crusade movement and the holly wars against the Muslin world in the middle age, Christianity was a strong point of identification in Europe. However, while the Southern Europeans are Roman Catholic most of north Europeans are Protestant and not ruled by the Vatican. It is possible to find strong differences in both cultures. In the pass, this common background was more a motive of war and division than of unity between people and cultures. Recently, immigration has increased Muslin, Hindu or animist population in the European States, most of times with European citizenship. Turkish presence in Germany, Algerians in France, Indians and Pakistanis in England are only few examples of the religious diversity in Europe.

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26 August 2007

(futebol)ismos (2)

Estádio Municipal de Braga, 2004, jogo Holanda-Estónia.

Last Mars 24, during the football mach Lithuania-France, for the qualifying to the 2008 European championship, the French team was received in the stadium with the band "Bienvenue à L’Europe". Meanwhile, Europeans are still thinking about what is European.

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25 August 2007

what is european? (4)

Brussels, 2004

Inside Europe, political borders have always been problematic. In a complex system of relations between tribes, dynasties, states or empires, invasions and contra-invasions all the political processes in Europe seem to be interconnected and changing since ancient times. European people have lived in wars during great part of the last millennium, the worst of them in the XX century. Despite diversity is a constituent part of an European culture, the official speech is that historical contact between cultures in Europe is a reality and the relationship between Europeans made possible the sharing of several cultural aspects. According to this principle, in all places where proximity resulted in demarcation or deteriorated coexistence into rivalry and ultimately war, shared experience has left a deep imprint on Europeans.

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24 August 2007

what is european? (3)

S. Petersburg, 2002



The geographic limits of Europe are undecided but it is used to point the Urals Mountains in the east, the Caspian Sea and the strait of Bosfor in the southeast. In this geographic definition, a huge area of Russia and part of Turkey belong to the European continent. There will be always a political and an imaginary line, splitting peoples and cultures.

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23 August 2007

what is european? (2)

Berlin, 2005
The main fathers of the European Union have in common the fact that they were all born in the XIX century, they lived the two World Wars, they were from near national borders (Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi) or far way from the main capitals (Winston Churchill or Jean Monet). At 18 years old, Jean Monet were already a business man from the wines of his family, which make him travel around Europe and north America. Monet rejected any kind of nationalist idea. John Kennedy call him a State Man of the World – with a simple idea he made more to unify Europe in 20 years that all the conquers in one thousand years.

O percurso dos principais políticos fundadores da União Europeia teve em comum o facto de todos terem nascido todos no século XIX, de terem vivido as duas grandes guerras, de serem oriundos de locais fronteiriços (Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi) ou longe das respectivas capitais (Winston Churchill ou Jean Monet). Jean Monet, que aos 18 anos de idade já era «caixeiro-viajante» dos vinhos da família, viajou não só pela Europa como no continente americano e rejeitava qualquer ideia de nacionalismo. John Kennedy chamou-lhe, inclusive, o homem de Estado do Mundo: com uma simples ideia ele fizera mais para unir a Europa em 20 anos do que todos os seus conquistadores em mil anos.

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22 August 2007

what is european?

Berlin, 2005

In 1957 the high representatives of the six Member States who assisted to the Treaty of Rome signature didn’t imagine that 50 years later it would be celebrated in Berlin, with the presence of 27 member states, 12 of them from the old east part of the iron curtain. Angela Merkel, President of the unified Germany, was born in the east part of Berlin. Merkel was 3 years old when the Treaty of Rome was signed and seven when the Berlin wall was built, separating her family and offering her as only horison a no way out street. This new generation of politicians is thinking: We’ve made Europe. Now we have to make Europeans.

Em 1957, os altos representantes dos 6 Estados Membros que assinaram o Tratado de Roma não imaginavam que, 50 anos mais tarde, ele seria celebrado em Berlim com a presença de representantes de 27 Estados membros, 12 dos quais oriundos da antiga parte leste da cortina de ferro. Angela Merkel, então presidente da Alemanha unificada, nasceu na parte leste de Berlim. Merkel tinha 3 anos de idade aquando da assinatura do Tratado de Roma e sete quando o Muro de Berlim foi erguido, separando a sua família e oferecendo-lhe como único horizonte uma rua sem saída. Esta nova geração de políticos enfrenta agora a questão: Fizemos a Europa. Agora temos que fazer os europeus.

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15 August 2007

praia com um relógio ao fundo

Figueira da Foz, 2007


Na praia com um relógio ao fundo o sinal horário provoca uma ligeira inquietação. Durante o toque das 7, as conversas de fim de tarde são brevemente interrompidas. Em silêncio, cada um pensa que, afinal, a cidade está atrasada dois dias.

13 August 2007

(futebol)ismos

Figueira da Foz, 2007
No passado dia 29 de Julho, uma equipa formada por jogadores xiitas, sunitas e curdos venceu a Taça da Ásia de futebol pela selecção do Iraque. Após o jogo, diversos jogadores iraquianos recusaram-se a ir a Bagdad festejar a vitória com receio de atentados. Dois dos melhores jogadores do Iraque tiveram, antes do torneio, familiares assassinados devido à violência sectária em que o país está mergulhado. Apesar do perigo, os iraquianos saíram à rua em massa e a vitória foi descontroladamente comemorada. Os 11 jogadores que conseguiram incitar o orgulho e a união nacional fizeram mais que 275 deputados do parlamento do país. O político sunita Saleem al Jubouri admitiu que “o que os jogadores conseguiram foi unir os iraquianos e fazê-los sorrir, fazendo com que nos envergonhássemos da nossa incapacidade para criar o mesmo sentimento” Zuhair Mohamed, de 35 anos, monitor de uma escola, gastou metade do ordenado de Julho a comprar camisolas da selecção com nomes de jogadores, em bandeiras e CD’s com músicas sobre uma selecção formada por jogadores xiitas, sunitas e curdos. I am not I.

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08 August 2007

eu declaro gozo ao sol






Aveiro, 2002
Bendito seja eu por tudo quanto não sei
É isso tudo que verdadeiramente sou
Gozo tudo isso como quem está aqui ao Sol

(Alberto Caeiro)

06 August 2007

conversa com o homem do roupeiro

Porto, 2007

05 August 2007

homem... árvore

serra do Gerês, 2002
antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
a ave passa e esquece, e assim deve ser.
o animal, onde já não está e por isso de nada serve,
mostra que já esteve, o que não serve para nada.
(Alberto Caeiro)

02 August 2007

cuidado com o SIDA (2)

Maputo, 2004

Os discursos sobre o continente africano oriundos das ciências sociais, da política e, sobretudo, dos mass media enquadram-se naquilo que o queniano Abdalla Bujra definiu de afro-pessimismo. Trata-se de uma atitude que simplesmente projecta tendências passadas sobre o futuro e não vê mais nada para além da escuridão de África. Segundo esta percepção, os países africanos constituem regiões sem esperança, marcados pela pobreza, por doenças endémicas e pelo sub-desevolvimento, pela corrupção e pela violência política. Os processos de reprodução das desigualdades sociais traduzem-se num contínuo aumento do fosso entre os países desenvolvidos e os em vias de desenvolvimento. O peso económico da África subsariana no conjunto da economia internacional torna-se progressivamente menor. Entre 1950 e 2000, a sua parte do PIB Mundial, expresso em paridade de compra, caiu em cerca de um terço e, em 2005, não representava sequer 1% a nível Mundial. Até meados da década de 1990, a África subsariana apenas participava nuns escassos 2% do total do comércio Mundial. A ominipresença destas notícias sobre África conduz a projecções negativas para o futuro do continente.

Esta visão contrasta com outras representações mais optimistas que apresentam África como um continente que, apesar dos problemas evidentes de que padece, dispõe de recursos e de possibilidades suficientes para olhar o futuro com outro sentimento. De acordo com dados da United Nations Statistics Division, em Moçambique, ao longo da década de 1990, a taxa de crianças matriculadas no ensino primário aumentou para 41% (+11%), e a população a viver em situação de desnutrição diminuiu para 47% (-19%). A taxa de mortalidade infantil registou também uma diminuição para 147 (-88) crianças por cada mil nascimentos.

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30 July 2007

cuidado com o SIDA

Bilene, 2004

Numa crónica do Expresso assinada por José Cutileiro lê-se que de acordo com "sondagens recentes conduzidas por gente séria e experimentada" (o que só assim não significa rigorosamente nada), a maioria dos africanos são muito mais optimistas do que os europeus quanto ao seu futuro e ao da próxima geração. De acordo com a incógnita investigação, apesar da descrença geral em relação à transparência de escrutínios eleitorais, ao usufruto das riquezas do país e à honestidade dos dirigentes, 69% dos nigerianos estão seguros que as crianças de hoje terão em crescidas uma vida melhor do que a deles. Que por todo o continente subsariano houve respostas parecidas. Em França, Alemanha, Itália, Japão, Canadá e Estados Unidos, pelo contrário, maiorias significativas estão convencidas que os filhos terão vidas bem piores que as suas. O optimismo dos africanos foi relacionado com o facto das suas economias estarem a crescer muito mais do que as do dito "mundo desenvolvido". Não sei… Cuidado com o SIDA.

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26 July 2007

I am not I (8)


"Je danse. Donc je suis".

(Leópold Senghor)

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20 July 2007

satisfação insatisfeita

Cahkt–Metepbyptcknñ (Saint-Petersburg), 2002
Um cigarro pode ser um tipo perfeito de perfeito prazer: é requintado e deixa-nos insatisfeitos...

19 July 2007

democracia

Gdansk, 2007

"A democracia é um mecanismo que garante que nunca seremos governados melhor do que aquilo que merecemos".
(George Bernard Shaw)

10 July 2007

o que é preciso é viver sem medo

Maputo, 2003

Hoje tive a honra de conhecer a simpática dona Maria Luísa, mãe do falecido jornalista Carlos Cardoso. Foi com comoção que três vezes me apresentou: “este senhor não conheceu o meu filho Carlitos mas ouviu falar muito dele”. Uma mãe que vê um filho morrer é como se algo em si morresse também. É com certeza a forma mais penosa de morrer: morrer ficando vivo. A dor que diz que não sentiu no nascimento do filho, convicta que dali não viria dor ao Mundo, sentiu-a apenas com a sua morte. Com preocupação ainda lhe repete o aviso: “Ai Carlitos que um dia te vão matar”. Num misto de orgulho e tristeza ainda o recorda: “O que é preciso é viver sem medo”.


"...Então
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta

À noite quando me deito em Maputo
não preciso de rezar
já sou herói... "

(Carlos Cardoso, "Cidade 1985")

08 July 2007

I am not I (7)

Luciano Costa, "Afirmação", óleo sobre tela, livraria Centésima Página.

Aicha e-Wafi é mãe de Zacarias Moussaoui, condenado a prisão perpétua, por cumplicidade nos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. Depois de uma infância feliz em Marrocos, com os tios liberais para a cultura muçulmana, Aicha el-Wafi casou aos 14 anos, à força, e acabou violada, espancada e explorada pelo marido. Aos 22 anos, Aicha tinha quatro filhos, dois já tinham morrido bebés depois de, grávida, ter sido espancada por Omar, o homem a quem o irmão a entregou e que já tinha estado preso por cegar a ex-mulher. Consegue divorciar-se e fugir para França, deixando as crianças num orfanato até conseguir ter trabalho. Torna-se funcionária da limpeza dos correios franceses, estuda, compra uma casa e reúne a família.
Aicha referiu que quando chegou a França se sentiu como uma estrangeira que aí se sentia integrada. Tratou-se da principal diferença em relação às segundas gerações de emigrantes: franceses que se sentem franceses desintegrados no seu próprio país. Segundo Aicha, “Eu amo a França. Mas não como ela me ama a mim”.

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02 July 2007

desassossego

Praga, 1998

Acho que pertenço ao grupo de pessoas que tem a presunção de achar que é no meio do povo que se encontra o país profundo, como se existisse uma única profundidade num país. Por essa e por outras razões utilizo com frequência os transportes públicos. Ontem, uma simpática senhora com mongolismo, de óculos de garrafa e cujo cheiro nauseabundo ainda consigo sentir sentou-se ao meu lado no comboio. Fez questão de partilhar comigo, insistentemente, a história do passe, que “veio de Lisboa”, enquanto a mãe, ao lado e em pé, ia ordenando à filha que se calasse.

Na feira do livro na estação de São Bento comprei o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa por 5 Euros. Depois da primeira frase tive a certeza que o acabo antes das férias:

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os maiores a haviam tido”.

01 July 2007

sabedoria de ponta (3)

Maputo, 2003
- (jornalista) O que queria que acontecesse depois das eleições?
- (vendedor) Queria que houvesse paz, que não houvesse guerra. Que houvesse emprego. Que houvesse mudanças.
- (jornalista) Que mudanças queria que houvessem?
- (vendedor) Queria que as mudanças mudassem.

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05 June 2007

salade de la mer dans une table o'soleil

Marseille, 2007
E se fossemos todos uns burgueses? Mmm... Credo!

05 May 2007

lost in translation (2)

Stockholm, 2002

Se vivêssemos num mundo surrealista, um dia surrealista seria assim:

1- Acordar do sonho para o sonho, bastando abrir as paredes do quarto (Max Ernst, Murais para a casa de Gala e Paul Éluard, 1923)
2- Chávena de café, prato de torradas e jornal aberto sobre as pegadas dos pés da mesa (Meret Oppenheim, Mesa com Pernas Pássaro, 1939)
3- Tactear até à maçaneta certa do armário para não tropeçar nas montanhas ou no céu com nuvens (Marcel Jean, Armário Surrealista, 1941)
4- Se estiver Primavera de Verão, vestir as borboletas com comprimentos de valsa, condizem bem com o chapéu de palha de onde não voa o escaravelho (Elsa Schiaparelli, Vestido, 1937)
5- Sentar-se no carrinho de mão para que alguém nos leve a passear (Óscar Dominguez, Carrinho de Mão, 1937)
6- Como ninguém vem, ficar em casa e mudar para assento mais carnudo até o corpo ficar maçado do beijo (Salvador Dalí e Edward James, Sofá Lábios de Mãe West, 1938)
7- “Ai” em vez de “Alô”, porque o telefone pica (Salvador Dalí e Edward James, Telefone-Lagosta, 1938)
8- Sonhar sozinho antes da noite, ocupando a nuvem toda (Isamu Noguchi, Sofá forma de nuvem, 1948)
9- Não recusar o convite para o ballet, especialmente se as esculturas dançam (Giorgio de Chirico, Figurinos, 1929)
10- Pôr o casaco de festa, de beber licor por palhinha e com copos extra para amigos, e brindar ao dia surrealista (Salvador Dalí, Casaco Afrodisíaco, 1936)

in Pública, 29-4-2007

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30 April 2007

pára-me de repente...



Em Portugal existe uma geração viva que cresceu a ouvir “que pena não teres nascido menina. Assim não ias para a guerra”. O destino era a emigração clandestina ou Angola, Guiné ou Moçambique.
De treze anos de guerra resultaram, só do lado português, cerca de 10 mil mortos e 30 mil deficientes, bem como 500 mil retornados. Muitos que voltaram fizeram-no com uma única certeza: que se mataram ou se viram morrer teriam de conviver o resto da vida com o defunto ou com o assassino, que acontecesse o que acontecesse, enquanto vivessem, teriam de o fazer tendo eles próprios por companheiros… Para esses, o passado nunca morreu, aliás nem sequer foi alguma vez passado.
Esse turbilhão de gente que fervilhou no calor africano e que intensamente aí viveu a loucura da juventude constituiu a geração histórica que assistiu à queda do império, ou melhor, do seu seu mito. Foi a traumática saída de África, para colonizadores e para colonizados (como escreveu o Mia Couto, em África aconteceram dois dramas: o primeiro foi a chegada do homem branco. O segundo foi a sua partida).
Portugal cingiu-se ao canto da Europa, reestruturou o seu lugar no Mundo e orientou-se para a União Europeia. Para muitos, o outro continente manteve-se presente no remorso e na saudade, na fantasia e no pesadelo, no silêncio e no tabu.
Com o fim das guerras civis e com o boom económico de Moçambique e Angola renasceu o discurso retórico da vocação atlântica. São comitivas de políticos e de empresários de orientação neo-colonial que embarcam cheios de presunção e de ideias feitas. Hoje, quando o calor aperta, quem durante o crepúsculo visitar a campa de Salazar, no preciso momento em que o Sol toca a linha do horizonte talvez consiga escutar um ligeiro sussurro: “Para Angola imediatamente e em jeito”.

25 April 2007

I´m free and I am happy

Vilankulos, 2003

Enquanto cantava reli este delicioso texto de valter hugo mãe:

“às vezes penso que o vinte e cinco de abril de setenta e quatro foi o dia em que a minha cabeça nasceu. a ideia é mais simples do que possa parecer, dessa data guardo a minha recordação mais antiga.

em setenta e quatro eu faria o meu terceiro aniversário e posso lembrar-me daquele dia por duas razões distintas, nenhuma menos relevante para toda a minha vida; primeira: eu estava com os meus pais e os meus avós maternos em lisboa, subitamente apanhados entre ruídos de tiros e confusões em redor do banco de portugal; segunda: viéramos de angola havia pouco tempo e lá não vira nenhuma criança loira, de pele clara, como o menino que brincou comigo no tempo de espera pelo meu pai. (…) um menino disse-me, eu cá vou para o escorrega, e eu nunca mais esqueci a sua expressão oral. dizia eu cá para tudo. parecia-me estranho. e menos igual vira um menino tão claro que me confunde ainda hoje a memória: não sei se em verdade o dia estava luminoso, se era o cabelo dele que o acendia em nosso redor. (…)

no dia em que a minha cabeça nasceu ofereceram-me a liberdade e conheci a diferença. conheci e aceitei a diferença. que no mundo haveria de ver gente clara ou escura, pobre ou rica, mão esquerda ou mão direita fechada sobre o peito, e haveria de me reportar constantemente àquele momento que guardei esquecido para só entender mais tarde. haveria de entender, vez por todas, que não desperdiçaria nunca coisa tão cara que um só dia me trouxe”.

20 April 2007

is this active citizenship? (5)

Coimbra, 2007
E se o verdadeiro sentido das coisas fosse mesmo as coisas não terem verdadeiramente sentido nenhum?

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14 April 2007

sabedoria de ponta (2)

museu da revolução, Maputo, 2003

- (jornalista) A sua vida está a melhorar?
- (camponês) Está a melhorar, está a melhorar. Mas está a melhorar muito mal.

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13 April 2007

escravitude

Redondela, 2002

A cerca de 10 km de Santiago de Compostela existe um lugar chamado Escravitude. Quem percorre o caminho português, cinco dias e cem quilómetros depois da fronteira depara-se com uma questão: continuar a pé ou apanhar o autocarro?

Escravitude, 2002

11 April 2007

Virgínia e Franz

(los lavabos de la librería La Central del Raval en Barcelona, 2006)

- (Ela) Sinto que hoje não fiz nada de produtivo.
(silêncio)
- (Ela) Sinto que os dias são todos iguais.
(silêncio)
- (Empregada do café) O que era?
- (Ele) Um fino
- (Ela) É só. Ou melhor, é tudo.
(silêncio)
- (Ela) Mas a sério, não te apetece fazer hoje alguma coisa de diferente?

08 April 2007

o senhor le pen e a masturbação

De acordo com o jornal Público de hoje, Jean-Marie Le Pen teve, durante o fim-de-semana de Páscoa, uma das propostas mais originais da actual campanha eleitoral francesa. Ao participar num debate no Instituto de Ciências Políticas de Paris opôs-se terminantemente à distribuição de preservativos nos estabelecimentos de ensino secundário, dizendo que as mulheres têm uma maneira muito fácil de não engravidar: limitarem-se à masturbação.
Tenho a dizer que achei muito interessante esta perspectiva do senhor Le Pen. Apetecia-me até fazer uma piada sobre higiene, saúde e distribuição gratuita de toalhetes, mas não faço porque seria de muito mau gosto e eu não sou malcriado (ou afinal sou) e porque não quero estragar a piada do senhor Le Pen.

07 April 2007

josina

Macia, 2004

Josina sonhava mudar o Mundo. João compreende que é difícil mudar o Mundo, o que não significa que aceite o Mundo como ele é.
Josina dedicou a sua vida à luta revolucionária. Perante o sentimento de impotência, João canaliza o seu inconformismo, a sua mágoa e solidão e procura transformá-los simplesmente em poesia e beleza.
Josina viu e sentiu dor e sofrimento. João, nas suas fotos, talvez não veja dor ou sofrimento mas simplesmente dignidade, simplesmente o Homem na sua mais humana condição.
João não se esqueceu que hoje foi o dia de Josina, o Dia da Mulher Moçambicana.

05 April 2007

sabedoria de ponta

Inhambane, 2003

- (tio mostrando slides) Olha, queres ver fotos dos meninos lá de Moçambique?
- (sobrinho, após silêncio) As pessoas lá são todas castanhas?

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04 April 2007

this is not a love letter

Berlin, 2005.

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03 April 2007

is this active citizenship? (4)

Braga, 2007

Lá no emprego as coisas não estão bem, a minha namorada deixou-me e não tenho dinheiro para comprar um telemóvel 3G, para fazer as vídeo-chamadas que não preciso fazer. Ainda por cima não gosto do cão do vizinho que mora a três quarteirões de mim e que, raios o partam, nem é português (se bem que a mulher dele é bem boa). Preciso de arranjar alguém para culpar das minhas frustrações. Não me interessa que tenha culpa ou não. Claro que não me vou culpar a mim próprio. Dar parte fraca!? Eu!? Qualquer dia vão-me pedir para ser simpático com as pessoas.

Por esse motivo vou culpar o Homem de Neandertal, esse sacana que invadiu o nosso país, que veio dormir com as mulheres do Homo Erectus e poluir a nossa raça. Toda a gente sabe que a cultura do Homem de Neandertal era claramente inferior e que ele não tinha capacidade de integração nesta região. Ele foi, ainda é e será sempre o grande culpado do estado da nação. Caramba, o Homo Erectus estava cá primeiro!

Já antes, quando o primeiro anfíbio invadiu as nossas zonas terrestres, com a sua política de natalidade expansionista, a nossa sociedade sofreu um forte abalo. Foi a decadência dos nossos valores vegetais originários. Ou terá sido com o Big Bang?

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30 March 2007

I am not I (6)

London, 2006

Nunca os seres Humanos tiveram tantos conhecimentos em comum, tantas referências comuns, tantos símbolos comuns e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenham vincado com tanta força a sua diferença. A mundialização acelerada provoca, como reacção, um reforço da necessidade de identidade. I am not I…

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mensagem a todos os que pagaram 60 cênt+IVA para votar no salazar:

vocês são uma vergonha!

26 March 2007

is this active citizenship? (3)

Braga, 2006
Se lhes fosse perguntado se comprariam um carro a um político, provavelmente 99% dos portugueses responderia que “Não!”. Os restantes mobilizaram-se para votar no Nojeira Salazar para melhor português. Ironia do destino, tratou-se da única votação livre que o ditador venceu. Ou terá sido a ignorância?

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23 March 2007

climate march

Trafalgar Square, 2006

Há cerca de cinco mil anos o Homem apareceu sabe-se lá de onde, diz que com cérebro e tudo. Depois começou a dar cabo do planeta.

22 March 2007

big man mugabe

Alexander Joe / AFP

Na foto, um jogo de cartas sul-africano numa sátira ao regime repressivo de Mugabe. De acordo com o jornal Público de hoje, o bispo sul-africano Desmond Tutu, prémio Nobel da Paz, revoltou-se por não ver um líder africano a “ter uma palavra de preocupação, já para não falar de condenação” (note-se no entanto que, de acordo com a notícia, África começa a romper o silêncio e a criticar o regime de Harare). Tutu questionou: “Preocupamo-nos realmente com os direitos Humanos, preocupamos realmente com as pessoas de carne e sangue, irmãos africanos, que estão a ser tratados como lixo quase pior do que foram tratados por racistas fanáticos? O que mais tem de acontecer para que nós, que somos líderes, religiosos e políticos, da nossa mãe África, finalmente gritemos: ‘Já chega!’?”

Já agora, porque motivo na Europa não se utilizam expressões como “irmãos europeus” ou “mãe Europa”?

I am not I (5)

Cahkt–Metepbyptcknñ (Saint-Petersburg), 2002

Uma identidade constitui uma página em branco, onde cada qual vai desenhando o seu próprio percurso. É isso que a torna dinâmica, complexa, única e inconfundível. A minha identidade é o que faz com que eu não seja idêntico a outra pessoa.

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21 March 2007

bom jour printemps

Malheira, 2004

E uma Rosa nasceu com a Primavera...

lost in translation

Bruxelles, 2004
Ontem à noite recebi o primeiro telefonema de protesto: “francamente, nem um mamilo!”.

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19 March 2007

let's fill the world with artists

London, 2006

17 March 2007

I am not I (4)


Arendt explicou que foi quando se sentiu atacada como judia que percebeu que se tinha que defender como judia e não como cidadã alemã ou qualquer outra coisa. Todas as grandes atrocidades que se operaram nos últimos anos resultaram de atávicas e contenciosas concepções de identidade. “Nós” fomos sistematicamente os inocentes e, “eles”, eternamente os culpados.

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16 March 2007

I am not I (3)

London, 2007

Um muçulmano é distinto de um cristão como, ele próprio, é distinto de todos os outros muçulmanos. Por comodidade atribuímos às pessoas do mesmo grupo os mesmos comportamentos e características. Quanto mais numerosas forem as minhas pertenças, mais específica e única é a minha identidade.

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15 March 2007

is this active citizenship? (2)

Lisboa, 2007
"Strike for indolence and for spiritual beauty".

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14 March 2007

is this active citizenship?

Lisboa, 2007
"I understand! I also like money!"

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12 March 2007

fahrenheit 451

London, 2007


What kind of relation there is between “after 9/11” and “call 911”?



London, 2007


Entretanto, por onde George Bush passa, multiplicam-se os protestos...

11 March 2007

I am not I (2)


A negritude constitui um conceito de origem francófona, desenvolvido por indivíduos de descendência africana, nascidos nas ex-colónias francesas. Esses intelectuais criaram um movimento cujo objectivo se orientava para a união de todos os “negros”, de forma a combater a discriminação a que eram submetidos e a revalorizar o seu papel político e sócio-cultural.


A negritude traduzia um conjunto de traços que se defendia serem característicos do “negro”, como a solidariedade, a capacidade de emoção ou a importância conferida ao simbólico e ao sagrado. Defensora da ideia que a cor da pele deflagra uma identidade comum, esta ideologia foi criticada pelo facto de veicular um essencialismo africano, imaginado por uma elite intelectual, alheia à heterogeneidade das populações do continente. A negritude constitui, por isso, não só uma reacção como uma extensão das ideologias racistas coloniais.

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09 March 2007

identidades pós-coloniais

"Muito Bom, nota máxima", disse o Júri. E se não houver nada que se possa ensinar que valha a pena ser aprendido?

Na foto, talvez alguém que não tenha recuperado de uma "infância demasiado feliz".

08 March 2007

I am not I


A grande maioria das pessoas identifica-se com uma tradição religiosa, com uma nação, com um grupo étnico ou linguístico, com uma província, com um bairro, com um grupo político, com um grupo desportivo, com um grupo de amigos… Mas esses elementos podem estar presentes, muitas vezes de forma contraditória, diferentemente combinados em cada uma das pessoas. É aí que reside a riqueza de cada um, de cada identidade.

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06 March 2007

vou pra casa mas não é pra já

Nunca senti realmente que sou de um «sítio». Sempre me orgulhei da minha falta de sotaque, pensando que a minha pronúncia era idêntica à que ouvia no telejornal. Depois convenci-me que a minha pronúncia era simplesmente de lado nenhum, a pronúncia de uma pessoa que não pensava fixar residência. Lá teve que ser. Ou não.

13 November 2005

web blog

Mas que raio vou fazer eu com isto?